Quando resolvi publicar Uma mulher real
Estava no limite de suportar a cobrança social para performar a mulher perfeita. Eu seria real. Foi então que comecei a escrever a minha própria narrativa.
Ao longo do processo de escrita, descobri que, quando contamos a nossa história, ela deixa de pertencer às expectativas dos outros. Ninguém mais pode definir quem somos ou dizer o que deveríamos ter sido. Naquelas páginas, assumi minhas dores, minhas fragilidades, mas também meus desejos. Dei voz ao que estava silenciado e comecei a integrar uma identidade que, por muito tempo, esteve fragmentada.
Continuei escrevendo mesmo durante uma grande transição profissional. Quando deixei a advocacia, compreendi que não se perde aquilo que nunca pertenceu verdadeiramente à nossa essência. Talvez não tenha havido uma renúncia, mas um reencontro.
Hoje vejo essa mudança como um ganho. Descobri uma nova profissão, fortaleço diariamente meu refúgio na arte e reafirmei os valores que desejo levar para a vida. Algumas pessoas permaneceram, outras chegaram por identificação, mostrando que autenticidade também aproxima.
O caminho, porém, esteve longe de ser simples. Chamei de limbo esse intervalo entre abandonar uma vida conhecida, ainda que dolorosa, e construir outra que ainda não existe. Nesse espaço, o único movimento possível é um salto de fé e um exercício diário de confiança em si mesma. Soltei seguranças aparentes, inclusive financeiras, e sigo atravessando essa ponte entre quem fui e quem estou me tornando.
As cobranças sociais sobre as mulheres continuam existindo, independentemente das escolhas que fazemos. Por isso, acredito cada vez mais na importância de criar espaços de partilha entre mulheres, onde possamos acolher nossas histórias, ampliar a consciência e transformar experiências individuais em mudanças coletivas.
É também por isso que acredito tanto na escrita.
Escrever organiza pensamentos, revela padrões, fortalece a identidade, amplia o autoconhecimento e desenvolve uma comunicação mais consciente. Publicar um livro vai além de lançar uma obra: é registrar uma época, provocar reflexão e contribuir para que determinados ciclos deixem de se repetir.
Quando mulheres escrevem suas histórias, elas não transformam apenas a própria vida. Também oferecem novas referências para outras mulheres que ainda procuram palavras para nomear aquilo que vivem.
Reverter as pressões sociais em arte tornou-se a minha forma de responder ao mundo. Às vezes pela expressão da dor. Outras vezes pela expressão do desejo.
Porque escrever, para mim, nunca foi apenas produzir um livro. Foi aprender a existir com a minha própria voz.





