O amor nos tempos de hoje

Outro dia, lendo a coluna da Vera laconelli, psicanalista, na Folha de São Paulo, sobre o amor nos tempos de hoje

A coluna comenta sobre o quanto estamos individualistas, e eu penso que alguns fatores favoreceram isso, como as redes sociais, streaming, delivery, sexo delivery e tecnologia no geral, além da pandemia, os apartamentos muito pequenos visando lucro dos investidores em detrimento da qualidade de vida nas grandes cidades, e com a alta dos custos de vida que fez com que a minha geração repensasse sobre família, filhos…enfim, eu percebi o quanto isso dizia sobre mim: um ser social, uma mulher na sociedade. E, portanto, sobre os meus relacionamentos: um dos temas do meu livro “Uma mulher real”.


Voltando para a coluna da Vera laconelli, ela fala da assimetria das relações quando compostas de indivíduos que acham que o outro lhe deve. Isso porque lhe faltou algo ou, por ter recebido na origem, achar que o outro lhe deve o mesmo que recebeu. Seria um sistema de recompensas, que vai da infelicidade à mais franca violência.


A mulher, nessas relações, quando se identifica no lugar de inferioridade, depositaria a conta disso no que ela acha que falta preencher para encontrar o par ideal, numa autocrítica feroz, em meio a um momento em que vivemos uma solidão nesse individualismo. E quando se faz possível a troca, em meio aos desencontros drummondianos, o que une seria justamente a sensação compartilhada de que simplesmente se ama sem saber bem por que aquele que também nos ama.


Seria entrar num encontro imperteito, carregado de história, ambivalência e desconhecimento — mas onde, apesar de tudo isso, duas pessoas sentem, ao mesmo tempo, que foram escolhidas de forma inexplicável. Assim, quando ambos pensam que o parceiro “é bom demais para ser verdade” seria o amor correspondido.


Talvez aí esteja o paradoxo: em um mundo em que se busca preencher uma falta ou saldar um débito de forma imediatista — o que, por si só, não resolve —, no outro isso tampouco é possível, não encontra correspondência.
O encontro acontece justamente quando ninguém entende exatamente por que toi escolhido, mas, ainda assim, foi — com suas taltas e imperteições.

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