Em Equilibrivm II, Anitta constrói uma narrativa sobre identidade, espiritualidade, ancestralidade, desejo e pertencimento.
A pergunta que atravessa essa jornada é profundamente feminina: como conciliar vida pessoal, carreira, desejo e espiritualidade sem precisar se partir? Essa é uma das questões centrais da Jornada da Heroína, apresentada por Maureen Murdock. Diferentemente da jornada tradicional do herói, voltada principalmente para a conquista externa, a heroína precisa retornar para dentro. Seu caminho envolve reconhecer as partes que foram silenciadas para corresponder às expectativas do mundo e integrá-las novamente à própria identidade.
A sensação de “tenho tudo, mas não tenho nada” representa o despertar dessa travessia. Mesmo depois de alcançar reconhecimento, poder e sucesso, a heroína percebe que algo permanece ausente. Para renascer, precisa ter coragem de abandonar uma identidade dividida, que já não sustenta sua totalidade.
É nesse momento que acontece a descida simbólica ao desconhecido. Como Alice no País das Maravilhas, a heroína deixa o mundo conhecido, atravessa o inconsciente e começa a olhar para além da própria imagem. Ela já não procura apenas aquilo que pode conquistar, mas tenta compreender quem é antes de qualquer cargo, função ou performance.
As entidades e os ritos de matriz africana aparecem como forças simbólicas dessa transformação. Zé Pelintra representa aquele que protege, mas também confronta, orientando a mulher a retornar para si. No Bori, ritual ligado ao fortalecimento e ao cuidado do ori — a cabeça e o destino individual —, surge a consciência de responsabilidade: a mudança também depende da disposição da heroína para cuidar de si e assumir as próprias escolhas.
Essa responsabilidade não significa atravessar tudo sozinha. A heroína reconhece as forças que a antecederam e a sustentam. Nos olhos das mulheres de sua linhagem, encontra o poder da criação. Ao enxergar Deus em cada matriarca, a narrativa devolve centralidade às mulheres que vieram antes e reconhece a ancestralidade como fonte de memória, força e direção.
A resposta para a aridez não está em produzir ou conquistar ainda mais, mas na natureza que cura e no retorno à própria natureza. A dor deixa de ser somente uma ferida e se transforma em possibilidade de renascimento. A mulher consegue renascer em flor da dor não porque nega o sofrimento, mas porque lhe atribui um novo significado.
Ao longo dessa travessia, a heroína também abandona a exigência de pureza. A afirmação “Eu não sou santa, mas sei que a Santa me adora” questiona uma moralidade que separa o corpo do espírito e o desejo da dignidade. A sensualidade não apaga a ancestralidade. O prazer também pode existir como expressão de vida, liberdade e reconciliação com o corpo.
A cura acontece quando a mulher deixa de se dividir entre luz e sombra, sagrado e sensual, força e vulnerabilidade. A imagem da criança como um passarinho que não mora em gaiola simboliza essa integração: a identidade não pode permanecer aprisionada às personagens construídas para agradar, pertencer ou sobreviver.
Exu aparece como aquele que movimenta, abre caminhos e confronta certezas. Ele não escolhe pela heroína, mas revela as consequências de suas escolhas. Não retira dela a responsabilidade pela travessia: evidencia aquilo que ela ainda tem medo de enfrentar.
Depois de retornar a si, a heroína compreende que não precisa chegar primeiro. Sua missão é abrir caminhos para que outras mulheres também possam passar. O retorno deixa de ser apenas individual e se transforma em contribuição coletiva.
A Jornada da Heroína em Equilibrivm II culmina na integração entre Larissa e Anitta, entre a mulher e sua imagem pública, entre ancestralidade, espiritualidade, corpo, desejo e propósito. Nenhuma dessas dimensões precisa desaparecer para que a outra exista. Ela se torna dona de si mesma: inteira e eterna.
Essa jornada também provoca uma reflexão sobre comunicação: a imagem que você apresenta ao mundo revela a mulher que você é inteira ou apenas a personagem que aprendeu a sustentar?
Na Mentoria Entre Nós, investigo com cada mulher sua essência, sua história, seus valores, suas dores, seus desejos e sua visão de mundo para transformar tudo isso em uma comunicação com intenção, presença e autenticidade. Porque comunicar não é inventar uma personagem. É revelar e dar forma a quem você já é.





